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O que um simples Kinder Ovo pode revelar sobre a nossa educação?

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Fui com minha filha de quatro aninhos e meio comprar um Kinder Ovo e, chegando ao Supermercado, ela viu que na prateleira tinha duas opções para levar: o da caixinha azul e o da caixinha rosa.

Deixei ela escolher, então, obviamente, ela, como menina, pegou seu chocolate preferido da caixinha… AZUL! (ooooohhhhh!)

Mesmo não dizendo absolutamente nada, as pessoas que lá estavam imediatamente me olharam com ar de “Nooossa, você vai deixá-la levar o azul ao invés do rosa?”.

Sorri orgulhoso e disse que, não raras vezes, ela despreza as bonecas para brincar de carrinho, e que isso é normal pra nós (minha esposa e eu).

Teve quem aparentou admiração – como se isso fosse digno de admiração -, e teve quem deu um risinho amarelado do tipo: “Olha o naipe da criação que ele dá à menina. Depois vira lésbica e não sabe o pq!”.

Sim, pq, em algumas ocasiões, o semblante, o olhar e a expressão corporal dizem muito mais do que a própria boca. Ninguém ali precisou falar para dizer.
E não é conclusão precipitada de minha parte deduzir o óbvio do que pensaram.

Há uma tentativa frustrada em camuflar preconceitos e visões reacionárias apenas fechando a boca. Mas, na maioria das vezes, é algo totalmente em vão pq sempre existe um “pescador de ar” no ambiente  (que nesse caso era eu).

Enfim…
Não, gente. Minha filha não vai virar lésbica.
Até pq, isso não se vira, se nasce.
Não é opção, é condição.

E se porventura minha filha for gay, ela já é, e ponto.
Claro que só descobrirá isso no momento certo pq ainda tem muita infância pra viver, mas não é o azul ou rosa, o carrinho ou a boneca ou o futebol ou o vôlei que definirão os rumos de sua sexualidade.

Aliás, não sou eu ou a mãe dela quem determinaremos isso. É a natureza que dá esse veredito assim que o espermatozoide fecunda o óvulo.

Nosso foco é proporcionar uma criação honesta, banhada ao amor, à empatia, ao altruísmo e ao respeito. Se tudo isso for internalizado pela Laís na fase adulta, nossa missão enquanto pais estará mais do que cumprida.

Eu não escolhi ser hétero, apenas nasci assim. E não sou nem melhor e nem pior do que um homossexual por causa disso. E é exatamente esse discurso que a Laís vai crescer ouvindo para não se tornar um outdoor-ambulante-propagador-de-ódio lá na frente.

Ela ainda é uma criança e se interessa por qualquer coisa de criança que lhe chame atenção, independente do que seja. Está descobrindo o mundo, as cores, os números, as letras… a cor trabalha seu estimulo visual e seu desenvolvimento intelectual e cognitivo.

Até pq, ela nem sabe o que é “cor de menino” e “cor de menina”. Ela sabe apenas que aquele chocolate é gostoso e zéfini. Não sou eu quem vai proibi-la de escolher um saboroso doce pq as pessoas acham que aquilo não foi feito pra ela devido a cor da embalagem.

Foi sim. É claro que foi. Foi muito!

É que a cabeça dos marketeiros também está em 1875 – embora insistam em pagar de cool-descolados-fora da caixinha.

O preconceito está na cabeça dos adultos imbecis que criam separatismos desde a idade da pedra, para determinar o que você deve (ou não) consumir de acordo com o que eles acham certo (ou não), e assim pré-julgar o caráter, a dignidade e a personalidade das pessoas baseados apenas numa escolha que se faz enquanto consumidor.

Quem inventou que azul é de menino e rosa é de menina? Isso é coisa do “homo-sapiens”.

Se fomentarmos na criação da nossa filha que isso é de homem e aquilo é de mulher, que isso é de menino e aquilo é de menina, etc., sempre que ela se deparar com algo contrário ao que lhe foi ensinado, vai achar que aquilo é o diferente, e, infelizmente, a tendência é criminalizar o diferente quando os limites da ignorância não lhe foram apresentados quando criança.

Por isso, algo que pode nos parecer simples e sem importância (como esse assunto, por exemplo), tem sim poder para fazer a diferença no futuro para nossas gerações e, consequentemente, para o mundo.

É semear o respeito à diversidade e às minorias desde a infância, para colher amor e paz na velhice.

– Menino usa azul e menina usa rosa, senão é viado ou sapatão, e blá blá blá blá…

Ah… que coisa mais retrógrada, preconceituosa e sem cérebro, né, gente? Tenho preguiça de “humanos” que ainda pensam assim em pleno 2018. Inclusive sou da opinião de que a humanidade deveria ser resetada, mas isso é assunto pra outro momento…

ENTÃO, RESPONDENDO À PERGUNTA DO TÍTULO DESSE TEXTO: “O que um simples Kinder Ovo pode revelar sobre a nossa educação?

A resposta é: nada!

Isso mesmo.
Pq não é o chocolate (utilizado como exemplo) que ditará alguma coisa sobre a nossa educação, mas sim, a forma como conduzimos a educação dos nossos filhos quando eles entram nessa etapa de escolhas e hábitos de consumo, por exemplo.

Afinal, esse estágio inicial da vida humana é o grande e único momento que os pais têm para mitar na educação e entregar ao planeta um adulto desprovido de hostilidade.

Do contrário, encarando com normalidade o que não é normal, passa-se a endossar preconceitos de forma inconsciente e, quando perceber, já foi. O monstro já está nas ruas – e então jamais se saberá “onde foi que se errou” lá atrás.

Fiquei orgulhoso em ver que minha Laís se sente à vontade para brincar com qualquer coisa que seja realmente de brincar e adequado à idade dela – independentemente de cor -, sendo criança e aproveitando a melhor fase da vida sem as preocupações bestas que as pessoas grandes têm.

Todos os dias acordo com mais certeza de que ser responsável por educar um ser humano é, sem dúvidas, o maior desafio do próprio ser humano.

E quando percebo que estou educando minha filha sem dizer que isso é de menino e aquilo é de menina (e enxergo ela assimilando essa liberdade), meu coração se enche de alegria.
Isso traz uma paz enorme e satisfatória sensação de que minha missão está nos trilhos.

Não existe brinquedo de menino, não existe brinquedo de menina; não existe cor de menino, não existe cor de menina.
Não é! Nada é!
Ela vai brincar com o que quiser e respeitar os amiguinhos que também optarem por brincar com aquilo o que quiserem também.

Brinquedos e cores não têm gênero. São os adultos que precisam aprender com a pureza das crianças.

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